As palavras da moda, aquelas que vêm e vão, são incontáveis: Resiliência – Empoderamento – Pivotar – Meritocracia – Sustentabilidade – Inclusão… e por ai vamos. Mas a palavra da vez, aquela que chama a minha atenção, é mitigar.

Mitigar ou abrandar, atenuar, amenizar, reduzir, diminuir, suavizar. A palavra, que tem origem no latim, é composta por “mitis”, que significa suave, ou macio; mais a raiz do verbo “agere”, que significa fazer ou agir.

Pela observação diária tiramos que “amenizar ou reduzir” são as principais palavras que se pretende substituir nos textos jornalísticos, e comentários de “especialistas”, que jorram, aos borbotões (argh!), cada dia, no Radio e TV – como algumas ervas daninhas que não conseguimos eliminar das nossas floreiras.

Alguém diz em casa, para a esposa ou marido, filho ou filha: “Precisamos mitigar o consumo de água?”. Ou, “Neste mês o consumo de energia foi muito elevado, vamos tentar mitigar o número de aparelhos ligados e assim amenizar o valor da conta?”. Se você trabalha em indústria, e mexe com produtos químicos, certamente possui um “Kit de mitigação” para contenção de líquidos.

Mas também sou obrigado a concordar que o uso de mitigar, em algumas esferas, facilita o entendimento dos pares. “Mitigação de Riscos” é um exemplo do uso diário da palavra, que forma uma expressão muito ao gosto de economistas e gestores de negócios, afeitos ao economês.

Efeitos da quarentena

O que me incomoda, na verdade, é que o uso de certas palavras, quando precisam de explicação, não deveriam ser utilizadas nos textos lidos nos jornais das 19h30 ou 20h30. Principalmente quando, logo após a tal palavra, é utilizado seu sinônimo para explicar e possibilitar o entendimento do ouvinte.

Disse o governador: “É importante que os profissionais de saúde consigam mitigar (e vem na sequência a explicação: reduzir)os riscos das pessoas que vivem nos asilos e têm contato diário com….”. Exemplo de construção ouvida todos os dias. Uso da palavra “mágica” e, em seguida, o sinônimo que a explica. Se é necessário explicar, por que, cargas d’água..?

E porque não mitigar “reduzir” o uso dos anglicismos, também, tão presentes em nosso dia a dia? Me ocorre, neste momento, ao menos cento e trinta palavras. Algumas aportuguesadas, como becape, linkar…

Disse o ministro, durante a entrevista: “O problema é o “day after”, o dia seguinte, que virá mais cedo ou mais tarde, e precisamos estar prontos…”.

Se é preciso adicionar um sinônimo ou traduzir, por que utilizar? Acho que a explicação tem mais a ver com a necessidade humana de se diferenciar…ou, igualar-se (?) e “fazer parte da turma”.

Um clássico que merece ser lido, aproveitando a quarentena que passamos e, assim, mitigar “reduzir” nossa ansiedade: “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, onde encontramos a icônica frase “somos todos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.

scmartins

Boa leitura.