Um futurista reflete sobre o mundo pós-COVID-19. Não tema o futuro, antecipe-o.

Esta foi a mensagem de Graeme Codrington, autor sul-africano, futurista e diretor fundador da empresa de idéias estratégicas TomorrowToday, no recente webinar para clientes da RGA “Como será o mundo pós-Covid-19?”
Ronald Poon-Affat

Para Codrington, a pandemia do COVID-19 é uma forma de pontuação – o final de um parágrafo e o início de outro.
Michael Porter, da RGA, entrevistou recentemente o futurista para aprender o resto da história.

Você pode descrever o que faz um futurista, especialmente no meio de uma pandemia global? 

Bom, meu cartão de visita diz futurista, mas isso não significa que eu possa prever o futuro. Os futuristas acompanham as tendências. Passamos muito tempo olhando a história para fornecer informações para onde estamos indo. Nos últimos três meses, com os casos de COVID-19 em ascensão em todo o mundo, nossa equipe direcionou esforços e energias para tentar oferecer cenários às empresas.

Deixe-me esclarecer: não somos médicos. E o resultado disso é simples, se você não é médico, não dê aconselhamento nessa área. Sempre sugiro ouvir as autoridades de saúde da sua cidade e siga os conselhos desses profissionais.

O COVID-19 não é a primeira doença mortal do século XXI. Em 2003 e 2004, a síndrome respiratória aguda grave (SARS) varreu o mundo. Agora, temos lockdown ou quarentena em vários países, e muitos estão se perguntando: o que mais está por vir?

É importante entender três coisas sobre como as autoridades de saúde pública tomam decisões em relação às medidas de lockdown:

  • Primeiro, são necessários testes extensivos, porque não basta fazer lockdown se você não sabe quem está doente. E, o que as pessoas costumam esquecer é que testar não é apenas saber quem está doente, mas, também, saber quem já se recuperou. Eu não sou médico e muito permanece desconhecido sobre como essa doença se move através das populações, e quanto mais as autoridades de saúde pública entendem sobre a transmissão em uma comunidade, mais podemos ver as restrições de bloqueio sendo afrouxadas sem arriscar um rápido aumento nos casos.
  • O segundo passo é o rastreamento de contatos. Portanto, se você encontrar alguém que foi infectado, é necessário descobrir aonde eles se infectaram e colocar essas pessoas em quarentena, o que significa que você precisa de equipamento de proteção pessoal adequado para essas pessoas.
  • E, finalmente, você precisa ter instalações hospitalares disponíveis. E este é o ponto mais importante: por que fazemos lockdown? Gosto da frase de Cingapura para bloqueio: eles chamam de “circuit breaker”, que é basicamente o que estamos fazendo. Não podemos curar a doença porque ainda não temos uma cura. Não podemos prevenir a doença, porque levará um a dois anos até termos uma vacina. Tudo o que podemos fazer no momento é tentar diminuir a taxa de transmissão para evitar sobrecarregar os sistemas de saúde.

Então, isso nos leva a pensar como ficaremos depois que as restrições forem suspensas. Todos os países que adotaram medidas de lockdown tiveram que estender os critérios pelo menos duas vezes. A maioria de nós está agora na segunda temporada – espero que tenha gostado da primeira! E nem todos os países estão totalmente preparados com testes adequados ao nível da população e, também, rastreamento de contatos, para afrouxar as regras de restrição.

A boa notícia é que o lockdown funciona. E a outra boa notícia é que mesmo aqueles países que não podem ou não se prepararam totalmente, podem olhar como nossos hospitais enfrentaram esse teste – e muitos sistemas hospitalares não estão sobrecarregados. As unidades de terapia intensiva que estavam transbordando estão sob controle. A taxa de hospitalização está diminuindo em algumas das áreas mais atingidas. Também sabemos que, até o surgimento de uma vacina, o COVID-19 vai viver e respirar em nossas comunidades. Enfrentamos o perigo real de uma segunda onda de infecções após o relaxamento das restrições. Obviamente os vírus também sofrem mutações e, caso seja infectado, talvez seja possível infectar-se novamente – simplesmente não sabemos. Podemos passar o resto de nossas vidas recebendo uma vacina anual contra COVID-19, tal como como a vacina contra gripe. Vamos superar essa situação, mas podemos estar enfrentando um novo normal.

O que você quer dizer com “novo normal”?

Não gosto da palavra distanciamento social; devemos estar socialmente conectados, mas fisicamente distanciados. Teremos que continuar fisicamente distanciados – mesmo após o lockdown terminar, até o surgimento de uma vacina em 12 ou 18 meses, na melhor das hipóteses. A poliomielite levou 35 anos desde o início da pesquisa. Se tivermos uma vacina em dois anos, será um avanço histórico. É por isso que os países que encerraram o lockdown, sem exceção, saíram do processo lentamente.

Neste caso, como será possível retomar à rotina e ainda permanecer fisicamente distanciados?

Não poderemos. Um novo normal já está surgindo. Nos países onde as medidas de lockdown foram suspensas, há restrições quanto ao número de compradores que entram em determinadas lojas. É possível abrir restaurantes, mas apenas com uma distância maior entre as mesas. Se você tem permissão para atender apenas metade ou talvez um terço de seus clientes normais, é financeiramente viável a sua abertura? Pense em shopping centers, cinemas e – este é um grande problema, companhias aéreas. Esses modelos de negócios dependem de volume, ou seja, atender muitas pessoas ao mesmo tempo. Se você estiver operando com 20 a 25% da capacidade, poderá administrar seus negócios normalmente? Provavelmente não, mas você tem a opção de aumentar seus preços.

Os serviços que antes eram vistos como necessários, tais como viagens aéreas, podem começar a parecer luxo, ou riscos infundados, no caso de viagens internacionais de negócios. Você está preparado para contrair COVID-19 apenas para participar de uma conferência ou, então, assinar um acordo pessoalmente? Se você viajar para outro país e as autoridades locais exigirem que você permaneça em quarentena, você terá condições de cumprir as normas?

Por outro lado, luxos tais como trabalhar em casa, podem começar a parecer necessidade. Alguns de nós adoramos evitar o trânsito na hora do rush; somos mais felizes em casa, produzimos muito mais e, portanto, nossos chefes estão mais satisfeitos conosco. Algumas empresas que tinham receio em permitir que os funcionários trabalhassem em casa, talvez possam reconsiderar essa posição. Em outros casos, tais como centrais de atendimento, armazéns, frigoríficos e minas de carvão – negócios que são essenciais mas com dificuldade de funcionar adequadamente com o distanciamento social, talvez seja possível observar níveis mais altos de automação.

O que você está descrevendo parece ser uma mudança radical na maneira como as pessoas prestam e compram serviços.

Há 12 anos, durante o colapso financeiro de 2008, eu morava em Londres e vimos as compras online decolarem. Naquela época, no Reino Unido, as compras online eram novidade. A Amazon estava apenas começando e, em meio à crise financeira, as pessoas se recolheram, começaram a trabalhar em casa e tentavam economizar dinheiro comparando os preços online. De repente, as compras online estouraram e o comércio de rua diminuiu, e tudo isso sem nenhum lockdown.

Trauma e incerteza podem influenciar psicologicamente o consumidor; muitos podem não estar tão ansiosos para se reunir e fazer compras, mesmo depois que o lockdown terminar. De certa forma, essa não é uma nova mudança, mas uma aceleração das tendências existentes. Todas as rupturas que você estava enfrentando há cinco meses ou cinco anos atrás, não desapareceram. A disruptura digital ainda está chegando ao varejo, saúde, seguros e muitos outros setores. A mudança social também está chegando: os problemas da crescente desigualdade de riqueza e desemprego não desaparecerão num piscar de olhos após o término desta crise. A pandemia apenas torna esses problemas mais extremos.

Quer boas notícias? Agora é a hora de mudar seus negócios, porque se você não fizer agora, não fará depois. Permita-se pensar que tivesse uma poderosa tecla reset e que pudesse simplesmente ocasionar uma disruptura em sua área de negócios, empresa e organização – porque uma pandemia global é essa tecla de redefinição. Algumas empresas, como a RGA, já têm essa mentalidade disruptiva incorporada ao DNA e as tornam capazes de antecipar – e se adaptar, ao que vem a seguir.

Neste caso, como será possível retomar à rotina e ainda permanecer fisicamente distanciados?

A pandemia está afetando isso também. Gigantes da tecnologia, como Apple e Google, lançaram aplicativos que usam dados de geolocalização em smartphones para realizar rastreamento de contatos e alertar as pessoas sobre sua possível exposição ao vírus, e os governos produziram aplicativos semelhantes em todo o mundo. Sempre soubemos que empresas e algumas nações tinham acesso a esses dados, e agora eles estão sendo usados. É intrusivo e, embora esses aplicativos atendam à saúde pública hoje, existem preocupações legítimas sobre o uso não autorizado e um possível abuso no futuro.

Você pode comentar sobre o enorme custo econômico da pandemia de coronavírus e o que isso pode significar?

Bom, são dois pesos e duas medidas: fazemos lockdown para salvar vidas, mas as pessoas também podem morrer de desespero, desnutrição e pobreza. Minha resposta é que vidas humanas sempre devem ser priorizadas. Eu sei que estamos fazendo um buraco cada vez maior, mas não estamos preenchendo esse buraco com corpos,  estamos apenas enchendo com dívidas. Não é tão simples quanto dizer: “Vamos voltar ao trabalho para resgatar a economia”. Se fizermos isso, uma porcentagem de nossa força de trabalho ficará muito doente nas próximas semanas.

Para as seguradoras de vida, uma área de preocupação é a mortalidade por idade avançada e os efeitos agora observados em instituições de assistência de longo prazo. Você pode comentar isso?

Infelizmente o COVID-19 é uma doença que afeta a geração mais velha e pessoas que sofrem de várias doenças crônicas. Parece provável que possamos observar mudanças nas estimativas de longevidade em nível populacional, o que poderia afetar os cálculos de fundos de aposentadoria e pensão, bem como as instituições criadas em torno de cuidados de longo prazo.

E qual o efeito menos visível que a pandemia pode ocasionar? Por exemplo, é provável que haja crescentes problemas de saúde mental?

Psicólogos e psiquiatras serão absolutamente necessários, pois veremos efeitos secundários na saúde mental. Iremos emergir disso com economias e sociedades que, pelo menos inicialmente, parecerão muito diferentes, e esse tipo de mudança pode desestabilizar até mesmo aqueles que gozam de boa saúde mental. No entanto, também vejo a telemedicina como forma de atender pessoas que sofrem, embora de forma mais sutil, com um tipo de atendimento que ajudará muitas pessoas a gerenciar ativamente esses distúrbios.

Certamente enfrentaremos outras adversidades, mas o mundo também demonstrou que possui notável resiliência. O COVID-19 apareceu em novembro de 2019 e, em 10 de janeiro de 2020, foi publicada a sequência genética do novo vírus. Os laboratórios desenvolveram estudos e, recentemente, começaram os primeiros testes de vacinas em humanos. Mais dados ajudarão os epidemiologistas entenderem como fazer o mundo voltar ao normal. Vamos superar isso e, também, vamos gerenciar a inevitável mudança que está por vir.