O mundo que conhecemos e que provavelmente não voltará a ser o mesmo, existe porque em algum momento – para nos situarmos nos últimos 100 anos – alguém ou alguns resolveram contestar o “status quo”.

Talvez a língua de Shakespeare não seria tão importante caso Chamberlain, que embora tenha declarado guerra contra os nazistas, tivesse persistido em sua política equivocada com relação ao perigo que se avizinhava, tão claro como a luz do sol.

A globalização acabou por comprovar-se ineficiente e danosa aos países que fazem parte do concerto das nações, onde poucos detém o controle sobre a maioria dos processos produtivos e estratégicos. Portanto, ao deixar o mercado agir de forma livre, e o capital circular pelo mundo em busca das melhores remunerações, ficam expostas as falhas existentes nesse modelo aceito amplamente. Não que o capital externo não seja bem-vindo, mas não deveria ser capital de exploração, como se o mundo ainda fosse feito de colônias.

Oportunidades perdidas

Nunca se viu tanta concentração de renda na mão de tão poucos.  “No Brasil, desde o final de 2014 até o 2º trimestre de 2019, a renda dos 50% mais pobres da população caiu 17%, a dos 10% mais ricos 3%, e a dos 1% mais ricos cresceu 10%” – Estudo “A Escalada da Desigualdade”, publicado pela FGV em nov/2019. VEJA AQUI O ESTUDO: https://cps.fgv.br/desigualdade. A nível global os 1% mais abastados detém riqueza equivalente a 99% dos demais.

Pensando em termos de Brasil é possível argumentar que, anteriormente a 2014, a desigualdade chegou a cair no país – governo Lula, 2003/2011, e parte do governo Dilma – mas apenas porque nos beneficiávamos de uma alta acentuada nos preços das commodities, com o país aceitando de vez esse modelo que o mundo se colocava.  

Hoje, reconhecemos que a maioria das nações entrou nesse jogo e viram suas indústrias destruídas. Esse modelo possibilitou, também, o surgimento de um fornecedor único, produzindo “tudo o que o mundo precisa” a valores que nenhuma outra economia consegue entregar. Mas como competir com um sistema de produção baseado em baixos salários, que oferece poucos ou nenhum benefício aos seus empregados?  

São poucos os líderes capazes de nos tirar desse imbróglio que o mundo se colocou, que certamente não irá se resolver sem atitudes fortes. Cada país deve analisar sua situação e, avaliados os prós e contras, buscar alternativas que possam preservar suas estruturas.

Sobre o capitalismo chinês

Como praticamente todas as economias democráticas estão presas ao modelo sino-keynesiano, onde a livre iniciativa está atrelada aos interesses do estado, fica claro, portanto, que essa simbiose aceita pelos países livres, quando realizada entre sistemas diametralmente opostos – onde um tem objetivos claros de nação e o outro de lucro individual – em momento algum irá resultar em benefício para os indivíduos; pelo menos do lado de cá da equação.
Nesta hora uma imagem me vem a cabeça: vejo um grupo de pessoas reunidas, final de tarde, tomando café. Uma delas, Linda, começa a falar:
John, como estão seus rendimentos? Meu consultor de investimentos propôs que eu aplicasse no mercado de ações, da América do Sul”.

Jude, que está ao lado, pergunta: “Mas é seguro?”

Linda: “Ele disse que sim. Se houver algum problema liquidam nossa posição de imediato e tudo volta no dólar do dia, que provavelmente trará um rendimento até maior do que nas ações, mas deve ser tudo muito rápido”.

John: “E depois, o que fazemos com o dinheiro?”

Linda: “Eles procuram outro país onde possam investir, mas também sair rapidamente, caso algo ruim possa acontecer. É tudo muito seguro para nós”.

E o grupo continua sua conversa, comentando sobre os problemas sociais do mundo. Desde a pobreza na América Central, África, América do Sul… e até sobre alguns problemas nos EUA, provavelmente devidos aos imigrantes ilegais.

Capitalismo e Estado Social

Neste momento, onde existe grande chance de acirramento nos movimentos direitistas, que já estavam ganhando corpo pelo mundo, também existe a possibilidade de surgirem blocos de países que irão garantir que suas economias nunca mais fiquem tão desprotegidas, como observamos agora na crise do Corona vírus.

O mundo que conhecemos não voltará a ser o mesmo. Talvez seja um mundo de controles mais rígidos sobre a produção de bens estratégicos e, quem sabe, o emprego deixe de ser um item de exportação.

Modelos econômicos estrategicamente pensados e maiores cuidados sociais devem ser propostos. Talvez nos espelharmos mais no capitalismo nórdico, onde o social é parte fundamental de todas as políticas, e menos no capitalismo norte americano. A democracia deve ser a tônica, mas as pessoas devem fazer parte do progresso, podendo aproveitar e usufruir de forma mais justa a riqueza por elas geradas. Qual é a sua aposta?

scmartins